Review – Ponyo (2008)

ponyoheaderO amor está no (m)ar!

É difícil descrever tudo o que o estúdio Ghibli consegue fazer com nossos pensamentos. É difícil entender a leveza e a forma como o estúdio e seus diretores conseguem atingir nossos sentimentos, nos fazendo sentir novamente como uma criança e fazer parte daquele mundo, daquela construção maravilhosa que nos é apresentada em forma de animação.

Recentemente corrigi mais um dos meus “erros” e vi um dos mais premiados e comentados filmes do Ghibli dos últimos anos: Ponyo. A primeira vista, tinha a impressão de que o longa era bobinho, infantil, sem um clímax aguçante. Julgava tudo isso só pelas imagens. E estava certo. Mas espera, espera. Não tirem conclusões precipitadas. A seguir eu lhes conto porque Ponyo é mais um dos clássicos de Miyazaki e o porquê eu ter me apaixonado pela fofa e apertável relação entre o ser humano e a prova de que o amor é maior que tudo no final.

Ponyo Filme Resenha Netflix Ghibli Miyazaki Screen (10)A HISTÓRIA

Sousuke é o filho de 5 anos de idade de um marinheiro. Ele vive uma vida tranquila em um penhasco à beira do oceano com sua mãe Lisa. Um dia fatídico, ele encontra um belo peixinho preso em uma garrafa na praia e ao resgatá-la lhe dá o nome de Ponyo. Mas ela não éum  peixe dourado comum. Filha de um assistente magistral e uma deusa do mar, Ponyo usa a magia de seu pai para transformar-se em uma jovem por vontade de estar com Sosuke, o qual ela aprende a amar. Mas o uso de tal magia poderosa provoca um desequilíbrio perigoso do mundo. Como a lua constantemente se aproxima da Terra, o pai de Ponyo envia poderosas ondas do oceano para encontrar sua filha. As duas crianças embarcam em uma aventura de uma vida para salvar o mundo e realizar os sonhos de Ponyo de se tornar humana e ficar ao lado de seu amigo e grande amor.

Ponyo Filme Resenha Netflix Ghibli Miyazaki Screen (5)CONSIDERAÇÕES TÉCNICAS

O penúltimo filme de Hayao Miyazaki. Só isso já deveria ser argumento suficiente para muitos conferirem Ponyo. Saber que a grande inspiração para Miyazaki foi A Pequena Sereia, como dito por ele em 2009 na Comic Con, é outro ponto. Lançado em 2008 pelo estúdio Ghibli, o longa conta com uma história original do mestre e foi produzido pelo estúdio cerca de 2 anos antes de seu lançamento (!!!). O filme gastou cerca de 4 milhões de euros em sua produção e é considerado um dos mais injustiçados por nem ao menos ter sido indicado para o Oscar pela Academia (em um ano onde só existiam 3 indicados, pasmem). Mesmo assim a obra ainda conseguiu faturar prêmios no Festival de Veneza, um dos mais importantes do cinema do mundo. Em sua exibição por todos os países, ele faturou mais de 200 milhões de dólares. No Brasil, o filme estreou nos cinemas brasileiros em 2010 – com o nome de “Ponyo – Uma amizade que veio do mar” – tendo vendido cerca de 20 mil ingressos no total. Atualmente Ponyo está disponível no Netflix com legendas em português, tendo já sido lançado no Brasil em DVD pelo grupo PlayArte.

Ponyo Filme Resenha Netflix Ghibli Miyazaki Screen (8)E o objetivo dessa resenha é desfazer uma injustiça. Por anos eu tive preconceito com Ponyo, encarando a produção de uma forma e me afastando da vontade de assistir ao longa. Por sorte, as coisas mudam.

Ponyo é visto por muitos como uma crítica socio-ambiental do Ghibli com os tempos modernos. Mais que modernos, pela cultura japonesa de destruir e “condenar” suas águas. Para quem não sabe, existe uma discussão ferrenha sobre a matança de baleias ao redor do país, e toda uma tese concreta de como isso afeta o ecossistema marinho da região. Espécies ameaçadas são cada vez mais comuns naquele lugar. Em Ponyo vemos um pouco como seria a discussão “do outro lado”. Uma criatura semi humana que protege os seres “especiais” dos mares e ao mesmo tempo a curiosidade de uma em especial de conhecer o mundo “de cima”. Com uma dose de mágica, obviamente. Sua mãe – a grande divindade dos mares – e seu pai, um ex-ser humano que decidiu se dedicar a cuidar de criaturas do mar e evitar que elas cruzem o caminho com os “malvados seres da superfície”.

Ponyo Filme Resenha Netflix Ghibli Miyazaki Screen (2)Ponyo é uma dessas que ele tenta proteger, principalmente por sua mãe ser exatamente a maior divindade de todas. Uma criatura fofa, que sai em busca do mundo humano e acaba se apaixonando por um garotinho, Sousuke (o qual Miyazaki afirmou que se baseou em seu filho, Goro Miyazaki – hoje também diretor – na época em que o menino tinha 5 anos de idade), que está disposto a proteger a mesma não importa o quanto isso possa parecer difícil para um garotinho de 7 anos. E essa relação é o que faz o filme ser tão especial, tão significativo. Não é a magia de Ponyo ou de outras criaturas, é o amor puro entre duas crianças, o carinho, a cumplicidade. É o amor que muitas vezes os adultos esquecem que existe, o qual não se trata apenas da relação “casal”.

Ponyo Filme Resenha Netflix Ghibli Miyazaki Screen (4)E isso é mais uma grande sacada da produção. Ponyo poderia abordar dezenas de outros temas, mas é no fato de ser um filme verdadeiramente infantil que ele se apega e segue a fórmula até o fim. Não é difícil encontrar produções americanas que se baseiam nesse tipo de conceito, entregando questionamentos sociais leves, mas sem deixar a essência infantil de lado. Lembro que um dos motivos de ter demorado tanto para assistir esse longa se deu ao fato de que todas as pessoas insistiam que “é infantil demais”, como se isso fosse algum tipo de desmerecimento. E não podemos parar para pensar dessa forma.

Dia desses, lá estava eu no trabalho conversando com um dos colegas sobre cinema e o fato de filmes serem bons ou não. E o comentário dele foi muito pertinente: O filme não ser do seu gosto não o torna automaticamente ruim. Antes de julgar assim, procure saber o público alvo e se aquele material está sendo feito para você. Julgue um filme pelo que ele te oferece, e não pelo que você espera dele. O erro é seu em tirar conclusões precipitadas.

Ponyo Filme Resenha Netflix Ghibli Miyazaki Screen (2)E isso é um fato! Ao associarmos Ghibli a Ponyo, automaticamente esperamos um enorme conto de fadas para ser digerido por um adulto de forma mais inteligente, com mensagens implícitas e personagens que nos transportam para as telas. Ponyo não faz isso… Com você, talvez com seus 20~30 anos, não sei. A mensagem é passada de forma leve, indireta; as críticas sociais servem apenas como pano de fundo, sem ter a preocupação de se tornar o ponto principal da história, que é o amor entre duas crianças.

Ponyo Filme Resenha Netflix Ghibli Miyazaki Screen (3)Ao falarmos sobre os aspectos técnicos da animação, porém, aí sim podemos encarar o estúdio como um todo. Quando assistimos uma animação Disney, Pixar, DreamWorks ou qualquer que seja, esperamos algo que mantenha o nível pois sabemos do potencial de tais produções. E mais uma vez o Ghibli não decepciona. A fotografia, a paleta de cores, as cenas “mágicas” e todo o trabalho de dublagem e sonorização é incrível. Em um dos ápices da animação, na cena de uma “enchente” (qualquer coisa mais que isso seria spoiler) você não consegue não ficar deslumbrado. Ponyo é o primeiro filme desde Princesa Mononoke a usar técnicas de animação e colorização tradicionais, o que dá ainda mais um charme para a produção. Talvez exatamente por isso você não sinta o mesmo feeling em outras produções mais recentes como A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado e até Vidas ao Vento – todas ótimas animações, obviamente.

Ponyo Filme Resenha Netflix Ghibli Miyazaki Screen (1)COMENTÁRIOS FINAIS

Se você foi daqueles que julgou Ponyo somente por ser uma obra do Ghibli, releia meus pontos e tente encarar o filme com outros olhos. Tente imaginar (não que todos consigam) que o seu eu criança está assistindo ao longa e se deliciando com a aventura, com aquelas paisagens incríveis, com um filme em que não há um mal. Ponyo pode não ter ganhado o mesmo destaque e projeção de outros clássicos do estúdio, mas consegue se superar e entregar um filme gostoso, divertido e com a cara de Miyazaki. O fato do diretor ter se inspirado em A Pequena Sereia torna tudo ainda mais fantástico e a fantasia fica ainda mais deslumbrante.

Em pouco mais de 1 hora e 40, você se apega a doçura das crianças, ao sentimento dos pais de Sousuke, da participação das senhorinhas que amam o garotinho e de todo o ambiente em que se passa o filme. Aquela vila, aquele local, realmente se torna aconchegante na tela, lhe transmite uma mensagem de família (Ohana!). Se você for a fundo, percebe todas as pequenas mensagens de “crianças, não joguem lixo no mar!” ou “seja forte, você já um mocinho/mocinha” para as crianças de plantão, as mais espertinhas.

Ponyo Filme Resenha Netflix Ghibli Miyazaki Screen (1)Isso faz parte de toda a pureza e toda a leveza de Ponyo, um filme impossível de não se apaixonar.

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4 Comentários

Arquivado em Animes, Review

4 Respostas para “Review – Ponyo (2008)

  1. Amanda

    Faz tanto tempo q assisti ponyo… Lembro q vi passar na HBO, e pensei “ghibli?? Omgg preciso assistir” e foram deliciosos minutos assistindo essa belezura.
    É infantil? Sim, e daí. Cmo tdos os outros do ghibli, e isso faz ele ser maravilhoso. Se alguém for usar isso como argumento para n assistir, n sei o q ainda esta fazendo nessa indústria de animes.

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  2. Daniel Barcelos

    Eu lembro quando eu vi Ponyo pela primeira vez, foi com o meu irmão de 8 anos.
    Domingo de tarde, e eu brincando com ele no nosso quarto, aí demos aquela pausa pra respirar e ver um pouco de tv, começamos a mudar de canal e estava passando Ponyo no Discovery Kids!
    Como eu faço questão de educar meu irmão direito, obrigo ele a ver um anime de vez em quando.
    Nos sentamos juntos na cama e ficamos lá, a tarde toda e assistindo Ponyo juntos… quando chegou no final nós estávamos deitados em coxinha e quase uma hora sem falar nenhuma palavra, parando para pensar é engraçado como essa história conseguiu cativar e prender a atenção tanto de uma criança quando de um adulto na mesma sala.

    Eu só queria parar de brincar e relaxar um pouco, já ia ficando só pra passar o tempo, chegou na metade e eu resolvi ficar a tarde toda ali, assistindo o filmezinho com cara de antigo com um sorriso besta no rosto daqueles que você tinha quando comia um doce escondido dos seus pais.
    Essa é a melhor parte de ter um irmão 11 anos mais novo do que você, ele te dá oportunidade de passar um tempo como criança de novo.

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  3. Por algum motivo, eu não gosto muito de Ponyo. Já assisti algumas vezes, mas ainda não me despertou aquela aura dos filme Ghibli. Mesma coisa com “Princesa Mononoke”.

    http://bibliotecabrasileirademangas.wordpress.com/

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  4. Também escrevi sobre essa animação incrível que conquistou meu coração apesar de sempre arrumar uma descupa para não assistir eu amei no momento que vi todas as cores e me tornei fã do studio

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